Não ignoro que muitos foram e são de opinião de que as coisas do…
Gabarito: B
A questão aborda um dos pilares do pensamento de Nicolau Maquiavel em sua obra O Príncipe: a tensão dialética entre a fortuna (as circunstâncias imprevisíveis, a sorte ou o destino) e a virtù (a capacidade, a prudência e o livre-arbítrio do governante). No trecho citado, Maquiavel reconhece a visão comum de que o mundo é governado pela divindade ou pelo acaso, o que levaria ao fatalismo — a ideia de que o homem não pode mudar nada. Entretanto, a filosofia maquiavélica defende que, embora a fortuna controle metade de nossas ações, a outra metade (ou parte aproximada) cabe ao nosso livre-arbítrio. Assim, a função da prudência e do livre-arbítrio é permitir que o soberano antecipe problemas e crie diques para conter as incertezas do campo político.
Enunciado
Não ignoro que muitos foram e são de opinião de que as coisas do mundo são governadas de tal modo pela fortuna e por Deus e que os homens não podem corrigi-las com a prudência, e até não têm remédio algum contra eles. Por isso, poder-se-ia julgar que não devemos incomodar-nos demais com as coisas, mas deixar-nos governar à sorte. MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2010. Diante dessas reflexões de Maquiavel, qual é a função do livre-arbítrio nos domínios da política?
Alternativas
- A)
Aplacar a aspiração de poder dos súditos.
- B)
Orientar o soberano no campo das incertezas.
Resposta correta - C)
Estabilizar a administração por meio do diálogo.
- D)
Relativizar os valores morais no escopo das tradições.
- E)
Aprimorar o espírito bélico para a conquista de territórios.
Resolução comentada
A questão aborda um dos pilares do pensamento de Nicolau Maquiavel em sua obra O Príncipe: a tensão dialética entre a fortuna (as circunstâncias imprevisíveis, a sorte ou o destino) e a virtù (a capacidade, a prudência e o livre-arbítrio do governante). No trecho citado, Maquiavel reconhece a visão comum de que o mundo é governado pela divindade ou pelo acaso, o que levaria ao fatalismo — a ideia de que o homem não pode mudar nada. Entretanto, a filosofia maquiavélica defende que, embora a fortuna controle metade de nossas ações, a outra metade (ou parte aproximada) cabe ao nosso livre-arbítrio. Assim, a função da prudência e do livre-arbítrio é permitir que o soberano antecipe problemas e crie diques para conter as incertezas do campo político.
- Incorreta. O aluno realiza uma soma conceitual indevida: ele adiciona o conceito de manutenção do poder à ideia de controle social, resultando na operação (onde 2 representa a repressão aos súditos), ignorando que o livre-arbítrio no texto é uma resposta à fortuna e não apenas à oposição interna.
- Correta. A função do livre-arbítrio (prudência) é justamente atuar como a bússola do governante em um mar de imprevistos (fortuna). Ele orienta a ação política para que o soberano não seja apenas um joguete das circunstâncias.
- Incorreta. O aluno aplica um multiplicador de anacronismo democrático, elevando a importância do diálogo em um fator de sobre o realismo pragmático de Maquiavel. Ele obtém o valor , confundindo a estabilidade administrativa moderna com a ação estratégica individual do príncipe.
- Incorreta. O aluno divide a prudência pela moralidade tradicional, resultando no quociente de para o relativismo. Embora Maquiavel separe ética e política, a pergunta foca na função do livre-arbítrio perante o governo do mundo (fortuna), e não na origem dos valores morais.
- Incorreta. O aluno realiza uma redução simplista onde subtrai todas as dimensões da virtù e deixa apenas o espírito bélico. Ele calcula da teoria maquiavélica, focando apenas na guerra e esquecendo que o livre-arbítrio citado no texto visa corrigir o governo das coisas do mundo como um todo.