Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era…
Gabarito: E
A questão aborda o comportamento do personagem Capitão Pelino, um mestre-escola caracterizado pelo purismo linguístico e pelo apego excessivo à gramática normativa (vernaculismo). O texto descreve que ele corrigia tanto escritores renomados quanto vizinhos em situações cotidianas. O ponto central para a resolução é observar que Pelino exercia sua correção gramatical em um ambiente informal: a "botica do Bastos", local de encontro para "dous dedos de prosa". Do ponto de vista linguístico, o uso da língua deve adequar-se ao contexto comunicativo. Ao corrigir termos como "asseguro" por "garanto" em uma conversa casual, Pelino demonstra uma visão inflexível que ignora a variação situacional (ou diafásica), tratando a fala espontânea com o mesmo rigor da escrita formal.
Enunciado
Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático. Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do Capitão Pelino, e mesmo quando se falava em algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve: ‘um outro’, ‘de resto’…” E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma cousa amarga.
Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores glórias nacionais. Um sábio… Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Candido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dous dedos de prosa. Conversar é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão-somente a ouvir. Quando, porém, dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o agente do Correio, que…” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’, Senhor Bernardes; em português é garanto”. E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras, houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o seu apostolado de vernaculismo.
BARRETO, L. A Nova Califórnia. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 24 jul. 2019.
Do ponto de vista linguístico, a defesa da norma-padrão pelo personagem caracteriza-se por
Alternativas
- A)
contestar o ensino de regras em detrimento do conteúdo das informações.
- B)
resgatar valores patrióticos relacionados às tradições da língua portuguesa.
- C)
adotar uma perspectiva complacente em relação aos desvios gramaticais.
- D)
invalidar os usos da língua pautados pelos preceitos da gramática normativa.
- E)
desconsiderar diferentes níveis de formalidade nas situações de comunicação.
Resposta correta
Resolução comentada
A questão aborda o comportamento do personagem Capitão Pelino, um mestre-escola caracterizado pelo purismo linguístico e pelo apego excessivo à gramática normativa (vernaculismo). O texto descreve que ele corrigia tanto escritores renomados quanto vizinhos em situações cotidianas. O ponto central para a resolução é observar que Pelino exercia sua correção gramatical em um ambiente informal: a "botica do Bastos", local de encontro para "dous dedos de prosa". Do ponto de vista linguístico, o uso da língua deve adequar-se ao contexto comunicativo. Ao corrigir termos como "asseguro" por "garanto" em uma conversa casual, Pelino demonstra uma visão inflexível que ignora a variação situacional (ou diafásica), tratando a fala espontânea com o mesmo rigor da escrita formal.
Análise das alternativas:
- Incorreta. O personagem faz o oposto do que afirma a alternativa. Ele prioriza a forma e a regra gramatical acima do mérito ou do conteúdo da informação, como mostra o trecho em que ele admite que um homem tem talento, mas critica o uso de expressões como "um outro".
- Incorreta. Embora o termo "vernaculismo" remeta à língua nacional, o comportamento de Pelino é descrito como pedantismo individual e não como um movimento de resgate de tradições patrióticas. O erro pedagógico aqui é confundir a defesa da norma culta com um projeto político de nacionalismo.
- Incorreta. Pelino é o oposto de complacente; ele é descrito como alguém que "corrigia e emendava" constantemente. O erro pedagógico é a incompreensão do termo "complacente" (tolerante), aplicando-o a um personagem que demonstra intolerância com o erro alheio.
- Incorreta. O personagem não invalida os preceitos da gramática normativa; ele os utiliza como verdade absoluta para invalidar qualquer uso que se desvie deles. O erro pedagógico é a inversão lógica: o aluno interpreta que Pelino ataca a gramática, quando na verdade ele a usa como arma contra os falantes.
- Correta. Pelino aplica a norma-padrão de forma indiscriminada, não reconhecendo que uma conversa informal em uma farmácia permite um nível de formalidade menor do que um texto escrito ou um discurso solene. Para ele, a língua deve ser única e imutável, independentemente do contexto.