A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último…
Gabarito: A
O fragmento do escritor angolano Ondjaki constrói o sentido de efemeridade e magia através do olhar de quem viveu a experiência: a criança. A voz narrativa estabelece uma distinção clara entre o tempo cronológico (os 'calendários de verdade' dos adultos) e o tempo psicológico/afetivo (o 'tempo fora do tempo' das brincadeiras). As 'significações afetivas' mencionadas no comando da questão referem-se a como o Carnaval ou o fim de uma brincadeira são sentidos como eventos súbitos e marcantes. Para que o leitor compreenda essa lógica de que os dias mágicos passam depressa e deixam marcas no 'coração', ele precisa reconhecer que o narrador fala a partir de uma perspectiva infantil, na qual a realidade é filtrada pelo encantamento e pela descoberta, e não pela objetividade dos fatos.
Enunciado
A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um mais velho a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente — nunca ninguém nos avisou que aquele era mesmo o último Carnaval da Vitória. O Carnaval também chegava sempre de repente. Nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade. (...) O “dia da véspera do Carnaval”, como dizia a avó Nhé, era dia de confusão com roupas e pinturas a serem preparadas, sonhadas e inventadas. Mas quando acontecia era um dia rápido, porque os dias mágicos passam depressa deixando marcas fundas na nossa memória, que alguns chamam também de coração. ONDJAKI. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. As significações afetivas engendradas no fragmento pressupõem o reconhecimento da
Alternativas
- A)
perspectiva infantil assumida pela voz narrativa.
Resposta correta - B)
suspensão da linearidade temporal da narração.
- C)
tentativa de materializar lembranças da infância.
- D)
incidência da memória sobre as imagens narradas.
- E)
alternância entre impressões subjetivas e relatos factuais.
Resolução comentada
O fragmento do escritor angolano Ondjaki constrói o sentido de efemeridade e magia através do olhar de quem viveu a experiência: a criança. A voz narrativa estabelece uma distinção clara entre o tempo cronológico (os 'calendários de verdade' dos adultos) e o tempo psicológico/afetivo (o 'tempo fora do tempo' das brincadeiras). As 'significações afetivas' mencionadas no comando da questão referem-se a como o Carnaval ou o fim de uma brincadeira são sentidos como eventos súbitos e marcantes. Para que o leitor compreenda essa lógica de que os dias mágicos passam depressa e deixam marcas no 'coração', ele precisa reconhecer que o narrador fala a partir de uma perspectiva infantil, na qual a realidade é filtrada pelo encantamento e pela descoberta, e não pela objetividade dos fatos.
Análise das alternativas:
- Correta (A): O texto enfatiza explicitamente o olhar das crianças ('Nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo'). A afetividade do relato — a confusão com as tintas, o sonho das roupas e a rapidez do dia mágico — é característica de quem apreende o mundo de forma lúdica.
- Incorreta. O aluno confunde o conteúdo do relato (a vivência de um tempo não linear pela criança) com a estrutura da narração. Por exemplo: o aluno soma (descrição do tempo) + (técnica narrativa) e conclui erroneamente que o texto é fragmentado ou não linear, quando a narração em si segue um fluxo reflexivo organizado.
- Incorreta. O aluno interpreta o detalhamento dos preparativos (pinturas e roupas) como o objetivo final da escrita, e não como um meio de expressar sentimento. Por exemplo: o aluno identifica elementos físicos e subtrai a carga emocional, resultando na ideia de que o autor quer apenas 'materializar' o passado em vez de expressar a subjetividade da infância.
- Incorreta. O aluno identifica o tema geral (memória), mas ignora a especificidade da voz que narra. Por exemplo: o aluno substitui a 'perspectiva infantil' (específica) por 'incidência da memória' (genérica), tratando qualquer lembrança como equivalente, perdendo o foco no olhar da criança que é o motor das afeições descritas.
- Incorreta. O aluno interpreta nomes próprios e eventos específicos como indicadores de um relato factual/objetivo. Por exemplo: o aluno isola termos ('Carnaval da Vitória' e 'Avó Nhé') e divide o texto em duas partes (subjetiva e factual), ignorando que, no fragmento, até os nomes são carregados de uma visão puramente emocional e lúdica.