— O senhor pensa que eu tenho alguma fábrica de dinheiro? (O diretor…
Gabarito: A
O fragmento da obra Os ratos (1935), de Dyonélio Machado, é um exemplo contundente da prosa de 30 no Brasil, que se caracterizou pelo realismo crítico e pela denúncia das desigualdades sociais. No trecho, o conflito entre o Dr. Rist (diretor) e Naziazeno (funcionário) evidencia a disparidade de poder. A recusa do diretor em ajudar Naziazeno financeiramente é feita de forma pública e paternalista, expondo a dependência econômica do empregado e transformando sua necessidade material em uma forma de humilhação e sujeição moral. A descrição do diretor (limpo, educado, bem-vestido) em oposição ao desespero silencioso de Naziazeno reforça como a pobreza retira do indivíduo sua autonomia e dignidade diante de quem detém o capital.
Enunciado
— O senhor pensa que eu tenho alguma fábrica de dinheiro? (O diretor diz essas coisas a ele, mas olha para todos como quem quer dar uma explicação a todos. Todas as caras sorriem.) Quando seu filho esteve doente, eu o ajudei como pude. Não me peça mais nada. Não me encarregue de pagar as suas contas: já tenho as minhas, e é o que me basta... (Risos.) O diretor tem o rosto escanhoado, a camisa limpa. A palavra possui um tom educado, de pessoa que convive com gente inteligente, causeuse . O rosto do Dr. Rist resplandece, vermelho e glabro. Um que outro tem os olhos no chão, a atitude discreta. Naziazeno espera que ele lhe dê as costas, vá reatar a palestra interrompida, aquelas observações sobre a questão social, comunismo e integralismo.
MACHADO, D. Os ratos. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
A ficção modernista explorou tipos humanos em situação de conflito social. No fragmento do romancista gaúcho, esse conflito revela a
Alternativas
- A)
sujeição moral amplificada pela pobreza.
Resposta correta - B)
crise econômica em expansão nas cidades.
- C)
falta de diálogo entre patrões e empregados.
- D)
perspicácia marcada pela formação intelectual.
- E)
tensão política gerada pelas ideologias vigentes.
Resolução comentada
O fragmento da obra Os ratos (1935), de Dyonélio Machado, é um exemplo contundente da prosa de 30 no Brasil, que se caracterizou pelo realismo crítico e pela denúncia das desigualdades sociais. No trecho, o conflito entre o Dr. Rist (diretor) e Naziazeno (funcionário) evidencia a disparidade de poder. A recusa do diretor em ajudar Naziazeno financeiramente é feita de forma pública e paternalista, expondo a dependência econômica do empregado e transformando sua necessidade material em uma forma de humilhação e sujeição moral. A descrição do diretor (limpo, educado, bem-vestido) em oposição ao desespero silencioso de Naziazeno reforça como a pobreza retira do indivíduo sua autonomia e dignidade diante de quem detém o capital.
- Correta. A. O texto mostra como a condição de pobreza de Naziazeno o coloca em uma posição de vulnerabilidade, onde ele deve suportar sermões públicos e a exposição de sua vida privada (a doença do filho) para tentar obter auxílio financeiro. Essa dependência caracteriza a sujeição moral mencionada.
- Incorreta. O aluno foca na menção implícita à escassez de recursos ("fábrica de dinheiro") e generaliza o problema microeconômico do personagem para uma escala macrourbana de "crise em expansão", ignorando que o foco do fragmento é a relação interpessoal de poder. Por exemplo: o aluno confunde a angústia individual de Naziazeno com um dado estatístico sobre o crescimento das cidades.
- Incorreta. O aluno interpreta a rispidez do diretor como uma falha comunicacional técnica, em vez de uma ferramenta de dominação social. Por exemplo: o aluno assume que o conflito seria resolvido com "mais diálogo", quando o texto mostra que o diálogo existe, mas é marcado pela assimetria total de poder, onde apenas um lado tem voz ativa.
- Incorreta. O aluno se deixa levar pela descrição adjetivada do diretor ("gente inteligente", "causeuse", "Dr. Rist") e atribui o conflito à sua capacidade intelectual, em vez de perceber que esses traços são usados pelo autor para marcar a distância de classe. Por exemplo: o aluno substitui a análise do conflito de classe pela valorização da erudição da personagem opressora.
- Incorreta. O aluno identifica as palavras "comunismo" e "integralismo" ao final do texto e assume que a tensão presente na cena deriva desses embates ideológicos diretos. Por exemplo: o aluno ignora a motivação financeira imediata (o pedido de dinheiro) e projeta uma disputa partidária que apenas serve de pano de fundo temático para a obra, mas não é a causa do conflito descrito no fragmento.