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Somente uns tufos secos de capim empedrados crescem na silenciosa…

Gabarito: A

O texto de Lelia Fróes promove uma simbiose profunda entre a personagem feminina e o cenário de aridez em que ela se encontra. A descrição utiliza um processo de mineralização ou reificação, no qual a mulher gradualmente perde seus traços puramente humanos e biológicos para assumir as qualidades do ambiente seco e desértico. Expressões como "rosto lanhado de vento", "pano desidratado" e, explicitamente, "se mineraliza" e "quase de pedra como a pedra a seu lado" demonstram que a condição humana está sendo amalgamada (fundida) ao processo de desertificação da paisagem. Além disso, a solidão é um componente central, visto que a mulher é o "único ser nas cercanias" e sua única companhia é a própria sombra.

Enunciado

Somente uns tufos secos de capim empedrados crescem na silenciosa baixada que se perde de vista. Somente uma árvore, grande e esgalhada mas com pouquíssimas folhas, abre-se em farrapos de sombra. Único ser nas cercanias, a mulher é magra, ossuda, seu rosto está lanhado de vento. Não se vê o cabelo, coberto por um pano desidratado. Mas seus olhos, a boca, a pele – tudo é de uma aridez sufocante. Ela está de pé. A seu lado está uma pedra. O sol explode. Ela estava de pé no fim do mundo. Como se andasse para aquela baixada largando para trás suas noções de si mesma. Não tem retratos na memória. Desapossada e despojada, não se abate em autoacusações e remorsos. Vive. Sua sombra somente é que lhe faz companhia. Sua sombra, que se derrama em traços grossos na areia, é que adoça como um gesto a claridade esquelética. A mulher esvaziada emudece, se dessangra, se cristaliza, se mineraliza. Já é quase de pedra como a pedra a seu lado. Mas os traços de sua sombra caminham e, tornando-se mais longos e finos, esticam-se para os farrapos de sombra da ossatura da árvore, com os quais se enlaçam.

FRÓES, L. Vertigens: obra reunida. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Na apresentação da paisagem e da personagem, o narrador estabelece uma correlação de sentidos em que esses elementos se entrelaçam. Nesse processo, a condição humana configura-se

Alternativas

  • A)

    amalgamada pelo processo comum de desertificação e de solidão.

    Resposta correta
  • B)

    fortalecida pela adversidade extensiva à terra e aos seres vivos.

  • C)

    redimensionada pela intensidade da luz e da exuberância local.

  • D)

    imersa num drama existencial de identidade e de origem.

  • E)

    imobilizada pela escassez e pela opressão do ambiente.

Resolução comentada

O texto de Lelia Fróes promove uma simbiose profunda entre a personagem feminina e o cenário de aridez em que ela se encontra. A descrição utiliza um processo de mineralização ou reificação, no qual a mulher gradualmente perde seus traços puramente humanos e biológicos para assumir as qualidades do ambiente seco e desértico. Expressões como "rosto lanhado de vento", "pano desidratado" e, explicitamente, "se mineraliza" e "quase de pedra como a pedra a seu lado" demonstram que a condição humana está sendo amalgamada (fundida) ao processo de desertificação da paisagem. Além disso, a solidão é um componente central, visto que a mulher é o "único ser nas cercanias" e sua única companhia é a própria sombra.

  • Incorreta. O aluno interpreta a sobrevivência em condições extremas como um ganho de força moral, ignorando que o narrador descreve um esvaziamento e uma perda de substância vital: 100% de vitalidade - 100% de dessangramento = 0 de fortalecimento. O texto foca no despojamento e na perda, não no fortalecimento.
  • Incorreta. O aluno confunde o termo "intensidade da luz" com vitalidade positiva, ignorando que a luz descrita é "esquelética" e o sol "explode" de forma agressiva. Ele lê "exuberância" onde o texto apresenta o oposto: AridezExuberaˆncia\text{Aridez} \neq \text{Exuberância}. O erro pedagógico é a interpretação de um antônimo como característica presente.
  • Incorreta. O aluno foca na menção à falta de "retratos na memória" para supor um conflito sobre a origem da personagem. Contudo, o texto afirma que ela "não se abate em autoacusações", indicando que ela ultrapassou o drama existencial individual para se tornar parte do ecossistema mineralizado.
  • Incorreta. O aluno realiza uma leitura incompleta, parando na descrição da mulher como "quase de pedra" e ignorando o desfecho do parágrafo. No final, as sombras "caminham", "esticam-se" e "enlaçam-se", o que nega a imobilidade absoluta: Ac¸a˜o das sombras>Estatismo da pedra\text{Ação das sombras} > \text{Estatismo da pedra}.

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