Não é verdade que estão ainda cheios de velhice espiritual aqueles…
Gabarito: D
O texto de Santo Agostinho apresenta uma das questões centrais do Livro XI de sua obra Confissões: a relação entre Deus (eterno) e a criação (temporal). O autor refuta aqueles que aplicam categorias de tempo humano à natureza divina. Para Agostinho, a compreensão humana é limitada ao fluxo temporal (passado, presente e futuro), enquanto Deus habita uma eternidade que não é um tempo infinito, mas a ausência total de sucessão temporal. A lógica da questão segue este raciocínio:
Enunciado
Não é verdade que estão ainda cheios de velhice espiritual aqueles que nos dizem: “Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra? Se estava ocioso e nada realizava", dizem eles, "por que não ficou sempre assim no decurso dos séculos, abstendo-se, como antes, de toda ação? Se existiu em Deus um novo movimento, uma vontade nova para dar o ser a criaturas que nunca antes criara, como pode haver verdadeira eternidade, se n’Ele aparece uma vontade que antes não existia?” AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1984. A questão da eternidade, tal como abordada pelo autor, é um exemplo da reflexão filosófica sobre a(s)
Alternativas
- A)
essência da ética cristã.
- B)
natureza universal da tradição.
- C)
certezas inabaláveis da experiência.
- D)
abrangência da compreensão humana.
Resposta correta - E)
interpretações da realidade circundante.
Resolução comentada
O texto de Santo Agostinho apresenta uma das questões centrais do Livro XI de sua obra Confissões: a relação entre Deus (eterno) e a criação (temporal). O autor refuta aqueles que aplicam categorias de tempo humano à natureza divina. Para Agostinho, a compreensão humana é limitada ao fluxo temporal (passado, presente e futuro), enquanto Deus habita uma eternidade que não é um tempo infinito, mas a ausência total de sucessão temporal. A lógica da questão segue este raciocínio:
- Os críticos perguntam o que Deus fazia "antes" de criar o mundo.
- Agostinho argumenta que o próprio tempo é uma criatura, ou seja, foi criado por Deus junto com o mundo.
- Logo, não existe um "antes" da criação, pois a própria cronologia só passa a existir com o ato criador.
- Ao tentarem projetar a vontade humana (que muda) em Deus, os homens revelam a abrangência limitada de sua própria compreensão diante do mistério da eternidade.
Análise das alternativas:
- Incorreta. Substituição de campo temático: Ética por Ontologia. Por exemplo: o aluno associa o termo "vontade" apenas ao agir humano moral, ignorando que o texto discute a natureza do ser de Deus e a imutabilidade de Seus desígnios no contexto da criação do universo.
- Incorreta. Erro de categoria conceitual: Tradição por Eternidade. Por exemplo: o aluno interpreta a menção ao "decurso dos séculos" como uma referência histórica à manutenção de costumes, em vez de perceber que o autor está questionando a própria existência da duração temporal antes do mundo.
- Incorreta. Inversão de fundamento epistemológico: Empirismo por Racionalismo Medieval. Por exemplo: o aluno acredita que a reflexão filosófica de Agostinho se baseia em "certezas da experiência" sensível, quando, na verdade, o autor demonstra que a experiência temporal é insuficiente para explicar o que é eterno.
- Correta. A questão aborda o limite da razão humana que, por estar presa à temporalidade, não consegue conceber um estado de ser (a eternidade) onde não existam sucessões de momentos ou mudanças de vontade.
- Incorreta. Redução do objeto de estudo: Metafísica por Fenomenologia. Por exemplo: o aluno supõe que a "realidade circundante" (o mundo físico) é o foco central, desconsiderando que Agostinho utiliza a criação do céu e da terra apenas como ponto de partida para uma abstração lógica sobre a essência divina e o tempo.