Pular para o conteúdo

O exercício da crônica Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo…

Gabarito: E

O texto de Vinicius de Moraes apresenta uma reflexão metalinguística sobre a crônica, definindo-a como uma arte que se debruça sobre o ordinário. A resolução da questão exige que se compreenda a função do cronista a partir das metáforas e oposições construídas pelo autor:

Enunciado

O exercício da crônica

Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo.

MORAES, V. Para viver um grande amor: crônicas e poemas. São Paulo: Cia. das Letras, 1991.

Nesse trecho, Vinicius de Moraes exercita a crônica para pensá-la como gênero e prática. Do ponto de vista dele, cabe ao cronista

Alternativas

  • A)

    criar fatos com a imaginação.

  • B)

    reproduzir as notícias dos jornais.

  • C)

    escrever em linguagem coloquial.

  • D)

    construir personagens verossímeis.

  • E)

    ressignificar o cotidiano pela escrita.

    Resposta correta

Resolução comentada

O texto de Vinicius de Moraes apresenta uma reflexão metalinguística sobre a crônica, definindo-a como uma arte que se debruça sobre o ordinário. A resolução da questão exige que se compreenda a função do cronista a partir das metáforas e oposições construídas pelo autor:

  1. Distinção entre ficcionista e cronista: O autor separa a prosa de ficção (que cria mundos e personagens) da "prosa do cotidiano" (a crônica).
  2. A matéria-prima: O cronista não inventa a realidade do nada; ele utiliza fatos "colhidos no noticiário" ou da vivência imediata ("da véspera").
  3. O processo criativo: A função do autor não é apenas relatar, mas usar sua "imaginação" e "artimanhas" para "injetar um sangue novo" naquilo que é comum.
  4. Conclusão: Esse ato de pegar algo trivial e transformá-lo através da perspectiva literária é o que se define como ressignificar o cotidiano.

Análise das alternativas:

  • Incorreta. O aluno desconsidera o trecho que indica que o fato é "colhido no noticiário", ou seja, ele já existe na realidade. O erro consiste em trocar a operação de 'transformação do real' pela 'criação do real', ignorando que a crônica parte de uma base factual externa ao autor.
  • Incorreta. O aluno foca na fonte da matéria-prima ("noticiário matutino") mas ignora a ação final descrita pelo verbo "injetar", que exige uma intervenção criativa. O erro é considerar a crônica como uma cópia ou reprodução literal, subtraindo o elemento da "imaginação" do processo.
  • Incorreta. O aluno interpreta a expressão "prosa fiada" de forma literal como uma instrução sobre o nível da linguagem (coloquialidade), em vez de percebê-la como uma definição da leveza temática do gênero. O erro pedagógico é confundir o registro linguístico com a essência e o objetivo da prática literária descrita.
  • Incorreta. O aluno atribui ao cronista a característica que o autor explicitamente vincula ao "ficcionista" no início do texto. O erro é uma falha de leitura contrastiva: o aluno aplica a definição da categoria A (ficcionista) à categoria B (cronista), ignorando a oposição feita por Vinicius.
  • Correta. A função de "injetar sangue novo" em fatos cotidianos ou notícias é a definição poética de ressignificação. O cronista pega o fato banal e, pela escrita e imaginação, atribui a ele um novo sentido e vitalidade estética.

Usamos cookies necessários para o funcionamento do site e, com seu consentimento, cookies de análise para melhorar a experiência. Leia nossa Política de Privacidade.