Zé Araújo começou a cantar num tom triste, dizendo aos curiosos que…
Gabarito: A
A questão aborda o conceito de variação linguística, especificamente a variação social (diastrática). O fragmento textual descreve a transição de Zé Araújo, um caboclo, de uma canção popular (de linguagem simples e temática de promessa de amor) para uma valsa que utiliza um léxico rebuscado, caracterizado por termos como "fulvos", "circúnvagos" e "liriais". O comentário do narrador, ao classificar a música como tendo "palavras difíceis" e ser "bonita que só a gota serena", evidencia a percepção de que essa variedade linguística — a norma culta/erudita — é detentora de grande prestígio social, sendo admirada mesmo por quem não a domina habitualmente.
Enunciado
Zé Araújo começou a cantar num tom triste, dizendo aos curiosos que começaram a chegar que uma mulher tinha se ajoelhado aos pés da santa cruz e jurado em nome de Jesus um grande amor, mas jurou e não cumpriu, fingiu e me enganou, pra mim você mentiu, pra Deus você pecou, o coração tem razões que a própria razão desconhece, faz promessas e juras, depois esquece. O caboclo estava triste e inspirado. Depois dessa canção que arrepiou os cabelos da Neusa, emendou com uma valsa mais arretada ainda, cheia de palavras difíceis, mas bonita que só a gota serena. Era a história de uma boneca encantadora vista numa vitrine de cristal sobre o soberbo pedestal. Zé Araújo fechava os olhos e soltava a voz: Seus cabelos tinham a cor/ Do sol a irradiar/ Fulvos raios de amor./ Seus olhos eram circúnvagos/ Do romantismo azul dos lagos/ Mãos liriais, uns braços divinais,/ Um corpo alvo sem par/ E os pés muito pequenos./ Enfim eu vi nesta boneca/ Uma perfeita Vênus. CASTRO, N. L. As pelejas de Ojuara: o homem que desafiou o diabo. São Paulo: Arx, 2006 (adaptado). O comentário do narrador do romance “(…) emendou com uma valsa mais arretada ainda, cheia de palavras difíceis, mas bonita que só a gota serena” relaciona-se ao fato de que essa valsa é representativa de uma variedade linguística
Alternativas
- A)
detentora de grande prestígio social.
Resposta correta - B)
específica da modalidade oral da língua.
- C)
previsível para o contexto social da narrativa.
- D)
constituída de construções sintáticas complexas.
- E)
valorizadora do conteúdo em detrimento da forma.
Resolução comentada
A questão aborda o conceito de variação linguística, especificamente a variação social (diastrática). O fragmento textual descreve a transição de Zé Araújo, um caboclo, de uma canção popular (de linguagem simples e temática de promessa de amor) para uma valsa que utiliza um léxico rebuscado, caracterizado por termos como "fulvos", "circúnvagos" e "liriais". O comentário do narrador, ao classificar a música como tendo "palavras difíceis" e ser "bonita que só a gota serena", evidencia a percepção de que essa variedade linguística — a norma culta/erudita — é detentora de grande prestígio social, sendo admirada mesmo por quem não a domina habitualmente.
- Correta. O uso de termos raros e literários (preciosismo vocabular) identifica a norma culta ou variedade de prestígio, que é socialmente valorizada e associada à alta cultura e escolarização.
- Incorreta. O aluno associa equivocadamente o ato de cantar (transmissão oral) à natureza da variedade linguística. Erro pedagógico: o aluno ignora que o léxico utilizado ("circúnvagos", "liriais") é típico da tradição escrita e literária, e não da oralidade espontânea.
- Incorreta. O aluno desconsidera o espanto do narrador e a própria origem do personagem (um caboclo). Erro pedagógico: o aluno pressupõe que o contexto social rural absorve naturalmente termos como "Vênus" e "pedestal", ignorando que o texto apresenta essa valsa justamente como algo excepcional e surpreendente para aquele ambiente.
- Incorreta. O aluno confunde o nível léxico com o nível sintático da língua. Erro pedagógico: ao encontrar palavras desconhecidas (léxico), o aluno projeta que a estrutura das frases (sintaxe) é complexa, embora o fragmento apresente construções diretas (ex: "Seus olhos eram circúnvagos").
- Incorreta. O aluno inverte a lógica do preciosismo literário. Erro pedagógico: o uso de vocabulário rebuscado é um esforço de valorização da forma (estética) acima da clareza do conteúdo, o que contradiz a alternativa que afirma a predominância do conteúdo.