Em 1866, tendo encerrado seus estudos na Escola de Belas Artes, em…
Gabarito: C
O texto analisa a recepção da obra A Carioca, de Pedro Américo, no contexto do Segundo Reinado brasileiro. Embora a pintura seguisse os rigores técnicos e os cânones da academia europeia (o "alto"), ela foi recusada por D. Pedro II por não se alinhar ao projeto ideológico e estético do Império. Naquele momento, a construção da identidade nacional brasileira nas artes visuais e na literatura privilegiava o Indianismo — a representação do indígena como o herói fundacional e símbolo da pureza nacional. A figura da "exótica morena" de Américo, carregada de um sensualismo orientalista (o "baixo"), confrontava tanto os limites morais quanto o repertório simbólico que o Estado desejava promover para consolidar a imagem da "monarquia tropical". Assim, a aceitação de uma obra não dependia apenas de sua qualidade artística, mas de sua submissão às demandas políticas e sociais externas à arte em si.
Enunciado
Em 1866, tendo encerrado seus estudos na Escola de Belas Artes, em Paris, Pedro Américo ofereceu a tela A Carioca ao imperador Pedro II, em reconhecimento ao seu mecenas. O nu feminino obedecia aos cânones da grande arte e pretendia ser uma alegoria feminina da nacionalidade. A tela, entretanto, foi recusada por imoral e licenciosa: mesmo não fugindo à regra oitocentista relativa à nudez na obra de arte, A Carioca não pôde, portanto, ser absorvida de imediato. A sensualidade tangível da figura feminina, próxima do orientalismo tão em voga na Europa, confrontou-se não somente com os limites morais, mas também com a orientação estética e cultural do Império. O que chocara mais: a nudez frontal ou um nu tão descolado do que se desejava como nudez nacional aceitável, por exemplo, aquela das românticas figuras indígenas? A Carioca oferecia um corpo simultaneamente ideal e obsceno: o alto — uma beleza imaterial — e o baixo — uma carnalidade excessiva. Sugeria uma mistura de estilos que, sem romper com a regra do decoro artístico, insinuava na tela algo inadequado ao repertório simbólico oficial. A exótica morena, que não é índia — nem mulata ou negra — poderia representar uma visualidade feminina brasileira e desfrutar de um lugar de destaque no imaginário da nossa "monarquia tropical"?
OLIVEIRA, C. Disponível em: http://anpuh.org.br. Acesso em: 20 maio 2015.
O texto revela que a aceitação da representação do belo na obra de arte está condicionada à
Alternativas
- A)
incorporação de grandes correntes teóricas de uma época, conferindo legitimidade ao trabalho do artista.
- B)
atemporalidade do tema abordado pelo artista, garantindo perenidade ao objeto de arte então elaborado.
- C)
inserção da produção artística em um projeto estético e ideológico determinado por fatores externos.
Resposta correta - D)
apropriação que o pintor faz dos grandes temas universais já recorrentes em uma vertente artística.
- E)
assimilação de técnicas e recursos já utilizados por movimentos anteriores que trataram da temática.
Resolução comentada
O texto analisa a recepção da obra A Carioca, de Pedro Américo, no contexto do Segundo Reinado brasileiro. Embora a pintura seguisse os rigores técnicos e os cânones da academia europeia (o "alto"), ela foi recusada por D. Pedro II por não se alinhar ao projeto ideológico e estético do Império. Naquele momento, a construção da identidade nacional brasileira nas artes visuais e na literatura privilegiava o Indianismo — a representação do indígena como o herói fundacional e símbolo da pureza nacional. A figura da "exótica morena" de Américo, carregada de um sensualismo orientalista (o "baixo"), confrontava tanto os limites morais quanto o repertório simbólico que o Estado desejava promover para consolidar a imagem da "monarquia tropical". Assim, a aceitação de uma obra não dependia apenas de sua qualidade artística, mas de sua submissão às demandas políticas e sociais externas à arte em si.
- Incorreta. O aluno foca exclusivamente na formação do artista e no uso de teorias europeias (como o orientalismo) mencionadas no texto. Operação errada: o aluno estabelece que , ignorando que o texto afirma explicitamente que a obra foi recusada mesmo obedecendo a esses cânones.
- Incorreta. O aluno desconsidera os marcadores temporais e conflitos de época descritos. Operação errada: o aluno assume que . Ao anular a variável do tempo, ele não percebe que a obra foi rejeitada justamente por ser inadequada ao seu momento histórico específico.
- Correta. A aceitação da obra estava condicionada à sua integração ao projeto de construção da identidade nacional brasileira, que possuía diretrizes ideológicas e estéticas muito claras (como o Indianismo romântico), as quais funcionavam como filtros externos para a legitimação oficial da arte.
- Incorreta. O aluno confunde a temática do nu (universal) com o critério de aceitação. Operação errada: o aluno aplica a lógica . No entanto, o texto demonstra que o tema universal da nudez foi rejeitado por não atender à especificidade do que se desejava como "nudez nacional".
- Incorreta. O aluno foca no domínio técnico e formal de Pedro Américo. Operação errada: o aluno calcula . O erro pedagógico é ignorar que, apesar de dominar os recursos acadêmicos, a "mistura de estilos" e a "carnalidade excessiva" romperam com o decoro exigido pela moralidade do Império.