TEXTO I Versos de amor A um poeta erótico Oposto ideal ao meu ideal…
Gabarito: D
A questão exige a análise comparativa de dois textos poéticos que abordam o amor sob prismas filosóficos distintos, mas que compartilham uma estrutura dualista comum. O Texto I, de Augusto dos Anjos (representante do Pré-Modernismo), apresenta uma visão neossimbolista e científica do amor, definindo-o como algo puramente espiritual e etéreo, situado acima da 'carne miserável'. O Texto II, de Manuel Bandeira (Expoente do Modernismo), propõe uma inversão dessa lógica: para ele, a alma é o que impede a conexão amorosa, restando ao corpo a única possibilidade de entendimento real.
Enunciado
TEXTO I Versos de amor
A um poeta erótico Oposto ideal ao meu ideal conservas. Diverso é, pois, o ponto outro de vista Consoante o qual, observo o amor, do egoísta Modo de ver, consoante o qual, o observas. Porque o amor, tal como eu o estou amando, É Espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, Imponderabilíssima, e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes!
ANJOS, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996 (fragmento).
TEXTO II Arte de amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus — ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
Os Textos I e II apresentam diferentes pontos de vista sobre o tema amor. Apesar disso. ambos definem esse sentimento a partir da oposição entre
Alternativas
- A)
satisfação e insatisfação.
- B)
egoísmo e generosidade.
- C)
felicidade e sofrimento.
- D)
corpo e espírito.
Resposta correta - E)
ideal e real.
Resolução comentada
A questão exige a análise comparativa de dois textos poéticos que abordam o amor sob prismas filosóficos distintos, mas que compartilham uma estrutura dualista comum. O Texto I, de Augusto dos Anjos (representante do Pré-Modernismo), apresenta uma visão neossimbolista e científica do amor, definindo-o como algo puramente espiritual e etéreo, situado acima da 'carne miserável'. O Texto II, de Manuel Bandeira (Expoente do Modernismo), propõe uma inversão dessa lógica: para ele, a alma é o que impede a conexão amorosa, restando ao corpo a única possibilidade de entendimento real.
A base da comparação é a oposição entre as dimensões física (corpo/carne) e metafísica (espírito/alma):
- No Texto I, o amor é 'Espírito' e 'substância fluida', elevando-se sobre a matéria biológica.
- No Texto II, o amor é a comunicação entre 'corpos', enquanto as 'almas' são consideradas incomunicáveis.
Portanto, ambos os autores constroem suas definições a partir da dicotomia corpo versus espírito.
Análise das alternativas:
- Incorreta. O aluno foca na palavra 'satisfação' presente no Texto II ('Só em Deus ela pode encontrar satisfação') e tenta projetar uma dicotomia emocional de satisfação versus insatisfação que não estrutura a definição de amor no Texto I. O erro pedagógico é a generalização de um termo isolado para ambos os textos.
- Incorreta. O aluno isola o termo 'egoísta' no início do Texto I ('do egoísta modo de ver') e assume que o amor, por ser 'espírito', seria o oposto (generosidade). No entanto, o Texto II não trata da moralidade do ato (egoísmo), mas da sua localização física ou espiritual. O erro é focar em um adjetivo acessório em vez do núcleo substantivo do argumento.
- Incorreta. O aluno interpreta a 'felicidade de amar' citada por Bandeira como o eixo central da questão. Contudo, nenhum dos textos define o amor pelo binário felicidade versus sofrimento, mas sim pela origem do sentimento. O erro é trocar o fundamento ontológico (o que o amor é) pela consequência psicológica (o que o amor causa).
- Correta. Ambos os textos operam no eixo corpo/espírito. Enquanto Augusto dos Anjos valoriza o espírito em detrimento da 'carne', Bandeira valoriza o corpo em detrimento da 'alma'. A oposição é o elemento estruturante comum.
- Incorreta. O aluno se confunde com o uso da palavra 'ideal' no primeiro verso de Augusto dos Anjos e supõe que a oposição seja entre o amor idealizado e o amor real. Embora o Texto II pareça mais 'realista', ele ainda opera em uma divisão metafísica entre alma e corpo, e não em uma crítica à idealização romântica clássica. O erro é confundir o estilo de época com o tema específico da oposição presente nos versos.