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Quem não se recorda de Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento…

Gabarito: D

O fragmento do romance Senhora, de José de Alencar, apresenta a protagonista Aurélia Camargo em um contexto de tensão entre sua autonomia individual e as normas sociais do Brasil imperial. Embora seja descrita como uma mulher de fibra, capaz de dirigir suas ações e governar sua casa, ela é obrigada a manter a companhia de D. Firmina Mascarenhas, uma "mãe de encomenda". Esse artifício servia para satisfazer as convenções da época, que não toleravam a emancipação feminina plena. Portanto, a figura da acompanhante evidencia como a autoridade e a independência da mulher, mesmo quando respaldadas por recursos financeiros, eram cerceadas por uma estrutura social patriarcal e sexista.

Enunciado

Quem não se recorda de Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira seu fulgor? Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia. Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu tempo saberemos a verdade, sem os comentos malévolos de que usam vesti-la os noveleiros. Aurélia era órfã; tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade. Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina. Guardando com a viúva as deferências devidas á idade, a moça não declinava um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse. Constava também que Aurélia tinha um tutor; mas essa entidade era desconhecida, a julgar pelo caráter da pupila, não devia exercer maior influência em sua vontade, do que a velha parenta. ALENCAR, J. Senhora. São Paulo: Ática, 2006.

O romance Senhora, de José de Alencar, foi publicado em 1875. No fragmento transcrito, a presença de D. Firmina Mascarenhas como "parenta" de Aurélia Camargo assimila práticas e convenções sociais inseridas no contexto do Romantismo, pois

Alternativas

  • A)

    o trabalho ficcional do narrador desvaloriza a mulher ao retratar a condição feminina na sociedade brasileira da época.

  • B)

    o trabalho ficcional do narrador mascara os hábitos sociais no enredo de seu romance.

  • C)

    as características da sociedade em que Aurélia vivia são remodeladas na imaginação do narrador romântico.

  • D)

    o narrador evidencia o cerceamento sexista à autoridade da mulher, financeiramente independente.

    Resposta correta
  • E)

    o narrador incorporou em sua ficção hábitos muito avançados para a sociedade daquele período histórico.

Resolução comentada

O fragmento do romance Senhora, de José de Alencar, apresenta a protagonista Aurélia Camargo em um contexto de tensão entre sua autonomia individual e as normas sociais do Brasil imperial. Embora seja descrita como uma mulher de fibra, capaz de dirigir suas ações e governar sua casa, ela é obrigada a manter a companhia de D. Firmina Mascarenhas, uma "mãe de encomenda". Esse artifício servia para satisfazer as convenções da época, que não toleravam a emancipação feminina plena. Portanto, a figura da acompanhante evidencia como a autoridade e a independência da mulher, mesmo quando respaldadas por recursos financeiros, eram cerceadas por uma estrutura social patriarcal e sexista.

  • Incorreta. O aluno comete um erro de atribuição de valor narrativo, realizando a operação descric¸a˜o da opressa˜o+voz do narrador=desvalorizac¸a˜o\text{descrição da opressão} + \text{voz do narrador} = \text{desvalorização}. O narrador, na verdade, ressalta a força de Aurélia e ironiza os "escrúpulos" da sociedade, não desvalorizando a mulher, mas expondo quem a desvaloriza.
  • Incorreta. O aluno aplica uma inversão lógica na função do texto: em vez de perceber o romance como uma revelação dos costumes, interpreta-o como um ocultamento. Operação: exposic¸a˜o de haˊbitos(1)=maˊscara\text{exposição de hábitos} \cdot (-1) = \text{máscara}. O texto explicitamente desmascara a função de D. Firmina como mera fachada social.
  • Incorreta. O aluno confunde a descrição crítica de costumes reais com a idealização romântica pura. O erro pedagógico é anular o fator histórico da equação: realidade social÷imaginac¸a˜o=0\text{realidade social} \div \text{imaginação} = 0. As características da sociedade não são remodeladas pela imaginação, mas fielmente retratadas para situar o conflito da heroína.
  • Correta. O texto mostra que Aurélia, apesar de sua riqueza e determinação, precisa de uma figura de autoridade delegada ("mãe de encomenda") para ser aceita, o que caracteriza o cerceamento sexista à sua autonomia.
  • Incorreta. O aluno comete um anacronismo ao interpretar a independência de Aurélia como um hábito da época e não como uma exceção ou afronta. O cálculo de tempo está incorreto por um fator de 100 anos: o aluno julga o hábito de 1875 com a régua social de 1975, obtendo 1875+100=19751875 + 100 = 1975. O texto afirma que a sociedade daquele tempo "não tinha admitido ainda certa emancipação".

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