Ai se sêsse Se um dia nois se gostasse Se um dia nois se queresse Se…
Gabarito: B
A questão aborda a legitimidade das variações linguísticas em contextos literários e culturais. O poema de Zé da Luz utiliza termos que se afastam da norma culta do português para construir uma voz autêntica, vinculada à cultura popular e regional do Nordeste brasileiro. Essa escolha estética e linguística não é um erro, mas uma forma de conferir identidade e expressividade ao texto.
Enunciado
Ai se sêsse Se um dia nois se gostasse Se um dia nois se queresse Se nois dois se empareasse Se juntim nois dois vivesse Se juntim nois dois morasse Se juntim nois dois drumisse Se juntim nois dois morresse Se pro céu nois assubisse Mas porém se acontecesse De São Pedro não abrisse A porta do céu e fosse Te dizer qualquer tulice E se eu me arriminasse E tu cum eu insistisse Pra que eu me arresolvesse E a minha faca puxasse E o bucho do céu furasse Tarvês que nois dois ficasse Tarvês que nois dois caísse E o céu furado arriasse E as virgi toda fugisse
ZÉ DA LUZ. Cordel do Fogo Encantado. Recife: Álbum de estúdio, 2001.
O poema foi construído com formas do português não padrão, tais como "juntim", "nois", "tarvês". Essas formas legitimam-se na construção do texto, pois
Alternativas
- A)
revelam o bom humor do eu lírico do poema.
- B)
estão presentes na língua e na identidade popular.
Resposta correta - C)
revelam as escolhas de um poeta não escolarizado.
- D)
tornam a leitura fácil de entender para a maioria dos brasileiros.
- E)
compõem um conjunto de estruturas linguísticas inovadoras.
Resolução comentada
A questão aborda a legitimidade das variações linguísticas em contextos literários e culturais. O poema de Zé da Luz utiliza termos que se afastam da norma culta do português para construir uma voz autêntica, vinculada à cultura popular e regional do Nordeste brasileiro. Essa escolha estética e linguística não é um erro, mas uma forma de conferir identidade e expressividade ao texto.
- Análise da linguagem: O uso de termos como "nois", "tarvês" e "juntim" caracteriza a variação diatópica (regional) e diastática (social).
- Função poética: Na literatura, o autor tem a liberdade de utilizar diferentes registros para caracterizar personagens ou o eu lírico, legitimando saberes populares.
- Identidade: A escolha linguística reforça a conexão com o universo do cordel e a realidade de um grupo social específico, validando sua forma de existir e falar.
Análise das alternativas:
- Incorreta. O aluno realiza a operação de atribuição de valor semântico equivocado: . Por exemplo: o aluno calcula a função do tom lírico como , obtendo o valor da alternativa A, ignorando que a variação serve à identidade e não necessariamente à comédia.
- Correta. A utilização de marcas de oralidade e regionalismos legitima a identidade de um povo, mostrando que a língua é um organismo vivo e que a norma popular possui valor cultural e artístico.
- Incorreta. O aluno aplica a inferência direta de capacidade técnica: . Por exemplo: o aluno calcula a escolaridade do autor como sendo baseando-se apenas na superfície do texto, sem considerar que o uso da variação é uma escolha consciente (estilística) do poeta.
- Incorreta. O aluno confunde alcance social com facilidade cognitiva: . Por exemplo: o aluno assume que o grau de dificuldade é para todos os brasileiros, esquecendo que regionalismos específicos (como "arriminasse") podem gerar baixo entendimento em leitores de outras regiões.
- Incorreta. O aluno confunde o uso contextual com a origem da estrutura: Contexto Literário Novo + Língua Tradicional = Inovação Linguística. Por exemplo: o aluno atribui o valor de "inovação" (algo inédito na língua) a formas que já existem há séculos na fala popular, obtendo o erro da alternativa E.