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Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que…

Gabarito: B

O fragmento de Memórias Póstumas de Brás Cubas exemplifica a ironia ácida de Machado de Assis, construída por meio de um narrador que pertence à elite escravocrata brasileira do século XIX. A percepção irônica é refinada no momento em que o narrador, Brás Cubas, tenta justificar a conduta bárbara de seu cunhado, Cotrim, utilizando argumentos que aparentam ser lógicos ou sociológicos. Ao afirmar que a violência contra os escravos não era uma falha de caráter, mas um 'puro efeito de relações sociais' decorrente do hábito do tráfico, Brás Cubas revela a naturalização da crueldade e a hipocrisia de uma classe que se via como 'honrada' enquanto sustentava a tortura como uma prática cotidiana de negócios.

Enunciado

Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de meu pai. Reconheço que era um modelo. Arguíam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos que chegavam a acusá-Io de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; verdade é que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele fora juiz) mandara-lhe tirar o retrato a óleo.

ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.

Obra que inaugura o Realismo na literatura brasileira, Memórias póstumas de Brás Cubas condensa uma expressividade que caracterizaria o estilo machadiana: a ironia. Descrevendo a moral de seu cunhado, Cotrim, o narrador—personagem Brás Cubas refina a percepção irônica ao

Alternativas

  • A)

    acusar o cunhado de ser avarento para confessar-se injustiçado na divisão da herança paterna.

  • B)

    atribuir a “efeito de relações sociais” a naturalidade com que Cotrim prendia e torturava os escravos.

    Resposta correta
  • C)

    considerar os “sentimentos pios” demonstrados pelo personagem quando da perda da filha Sara.

  • D)

    menosprezar Cotrim por ser tesoureiro de uma confraria e membro remido de várias irmandades.

  • E)

    insinuar que o cunhado era um homem vaidoso e egocêntrico, contemplado com um retrato a óleo.

Resolução comentada

O fragmento de Memórias Póstumas de Brás Cubas exemplifica a ironia ácida de Machado de Assis, construída por meio de um narrador que pertence à elite escravocrata brasileira do século XIX. A percepção irônica é refinada no momento em que o narrador, Brás Cubas, tenta justificar a conduta bárbara de seu cunhado, Cotrim, utilizando argumentos que aparentam ser lógicos ou sociológicos. Ao afirmar que a violência contra os escravos não era uma falha de caráter, mas um 'puro efeito de relações sociais' decorrente do hábito do tráfico, Brás Cubas revela a naturalização da crueldade e a hipocrisia de uma classe que se via como 'honrada' enquanto sustentava a tortura como uma prática cotidiana de negócios.

  1. Incorreta. Atribuição de relevância total a elemento de contexto familiar: 1÷1=11 \div 1 = 1. Por exemplo: o aluno calcula que o conflito de herança mencionado no início do texto representa 100% da motivação da ironia, em vez de ser apenas um preâmbulo para a análise do caráter moral de Cotrim, obtendo a opção A.
  2. Correta. A ironia reside na justificativa 'cientificista' da barbárie. O narrador utiliza o conceito de que o meio ou o tipo de negócio molda o homem para desculpar a tortura, expondo o cinismo da moralidade da época.
  3. Incorreta. Adição de qualidades domésticas ignorando o passivo humanitário: 1+1=21 + 1 = 2. Por exemplo: o aluno calcula que 'Sentimentos pios' somados ao 'Amor aos filhos' resulta em um 'caráter irrefutável' (resultado 2), esquecendo-se de subtrair o valor negativo da tortura e do sangue no calabouço, o que o leva à opção C.
  4. Incorreta. Multiplicação por fator de depreciação inexistente: 1(1)=11 \cdot (-1) = -1. Por exemplo: o aluno calcula o valor de ser 'tesoureiro' como uma ofensa ou motivo de menosprezo (valor negativo), quando, no texto, Brás Cubas utiliza esses cargos como prova de prestígio e ausência de avareza, obtendo a opção D.
  5. Incorreta. Projeção de detalhe acessório como pilar central: 1÷1=100%1 \div 1 = 100\%. Por exemplo: o aluno calcula que a vaidade representada pelo 'retrato a óleo' é a variável principal da ironia machadiana, ignorando que o foco central da crítica é a moralidade perversa em relação à escravidão, o que o leva à opção E.

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