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Quando Deus redimiu da tirania Da mão do Faraó endurecido O Povo…

Gabarito: C

O soneto de Gregório de Matos, principal expoente do Barroco no Brasil, utiliza a técnica da intertextualidade e da alegoria para tecer uma crítica social e política. O autor estabelece um paralelo direto entre a narrativa bíblica do Êxodo — na qual o povo hebreu é libertado da tirania do Faraó por intervenção divina — e a situação da Bahia colonial no século XVII.

Enunciado

Quando Deus redimiu da tirania Da mão do Faraó endurecido O Povo Hebreu amado, e esclarecido, Páscoa ficou da redenção o dia. Páscoa de flores, dia de alegria Aquele Povo foi tão afligido O dia, em que por Deus foi redimido; Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia. Pois mandado pela alta Majestade Nos remiu de tão triste cativeiro, Nos livrou de tão vil calamidade. Quem pode ser senão um verdadeiro Deus, que veio estirpar desta cidade O Faraó do povo brasileiro.

DAMASCENO, D. (Org.). Melhores poemas: Gregório de Matos. São Paulo: Globo, 2006.

Com uma elaboração de linguagem e uma visão de mundo que apresentam princípios barrocos, o soneto de Gregório de Matos apresenta temática expressa por

Alternativas

  • A)

    visão cética sobre as relações sociais.

  • B)

    preocupação com a identidade brasileira.

  • C)

    crítica velada à forma de governo vigente.

    Resposta correta
  • D)

    reflexão sobre os dogmas do cristianismo.

  • E)

    questionamento das práticas pagãs na Bahia.

Resolução comentada

O soneto de Gregório de Matos, principal expoente do Barroco no Brasil, utiliza a técnica da intertextualidade e da alegoria para tecer uma crítica social e política. O autor estabelece um paralelo direto entre a narrativa bíblica do Êxodo — na qual o povo hebreu é libertado da tirania do Faraó por intervenção divina — e a situação da Bahia colonial no século XVII.

O raciocínio se desenvolve da seguinte forma:

  1. Nos dois primeiros quartetos, o eu lírico descreve a libertação histórica dos hebreus como um ato de redenção divina contra a opressão.
  2. Nos tercetos, ocorre a transposição para o contexto local: o eu lírico clama por um verdadeiro Deus (ou um governante enviado por Deus) que venha livrar a cidade do Faraó do povo brasileiro.
  3. Nessa analogia, o Faraó representa as autoridades coloniais (frequentemente os governadores da Bahia) que exerciam o poder de forma autoritária e corrupta. Portanto, o tema central é a crítica ao governo local sob o manto da linguagem religiosa barroca.

Análise das alternativas:

  • Incorreta. O aluno atribui peso 1 à característica geral de desilusão barroca e peso 0 à especificidade política do texto: 1+0=Visa˜o Ceˊtica Generalizada1 + 0 = \text{Visão Cética Generalizada}. Por exemplo: o aluno interpreta o termo 'tirania' como uma condição humana universal em vez de uma crítica direcionada a um administrador público específico.
  • Incorreta. O aluno soma a menção ao povo brasileiro a um conceito de Estado-nação moderno: 1680+150=18301680 + 150 = 1830. Por exemplo: o aluno antecipa o sentimento nacionalista romântico em mais de um século, ignorando que o termo 'brasileiro' no Barroco possuía sentido geográfico colonial e não de identidade política nacional.
  • Correta. O texto utiliza a figura do Faraó como metáfora para o governante opressor, caracterizando uma crítica política camuflada (velada) por analogias bíblicas.
  • Incorreta. O aluno isola o campo semântico religioso e ignora a conclusão pragmática do soneto: 10 termos religiosos / 1 alvo político = Poesia Religiosa. Por exemplo: o aluno foca em 'Páscoa' e 'Deus' mas desconsidera que estes termos servem apenas como premissas para a conclusão satírica sobre a cidade da Bahia.
  • Incorreta. O aluno inverte o sentido da palavra 'Faraó', tratando-a como uma entidade pagã real a ser combatida: Faraoˊ=Heresia\text{Faraó} = \text{Heresia}. Por exemplo: o aluno supõe que a 'tirania' mencionada é de ordem religiosa (práticas pagãs) e não política (abuso de poder do governante cristão).

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