Pote Cru é meu pastor. Ele me guiará. Ele está comprometido de monge.…
Gabarito: E
O poema de Manoel de Barros estabelece uma relação intertextual com o Salmo 23 da Bíblia Cristã (). No entanto, o autor opera uma subversão desse sentido original ao substituir a divindade pela figura de Pote Cru. Esse personagem não conduz o eu lírico a pastos verdejantes ou à salvação espiritual, mas sim a um cenário de restos, detritos e seres marginalizados (trapos, vísceras de piranhas, baratas albinas). A identificação do eu lírico com Pote Cru ocorre por meio da valorização do que é considerado inútil ou abjeto pela sociedade produtiva, o que constitui a essência da poética de Manoel de Barros: a celebração da insignificância e a transformação do em .
Enunciado
Pote Cru é meu pastor. Ele me guiará. Ele está comprometido de monge. De tarde deambula no azedal entre torsos de cachorro, trampas, trapos, panos de regra, couros, de rato ao podre, vísceras de piranhas, baratas albinas, dálias secas, vergalhos de lagartos, linguetas de sapatos, aranhas dependuradas em gotas de orvalho etc. etc. Pote Cru, ele dormia nas ruínas de um convento Foi encontrado em osso. Ele tinha uma voz de oratórios perdidos. BARROS, M. Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record, 2002. Ao estabelecer uma relação com o texto bíblico nesse poema, o eu lírico identifica-se com Pote Cru porque
Alternativas
- A)
entende a necessidade de todo poeta ter voz de oratórios perdidos.
- B)
elege-o como pastor a fim de ser guiado para a salvação divina.
- C)
valoriza nos percursos do pastor a conexão entre as ruínas e a tradição.
- D)
necessita de um guia para a descoberta das coisas da natureza.
- E)
acompanha-o na opção pela insignificância das coisas.
Resposta correta
Resolução comentada
O poema de Manoel de Barros estabelece uma relação intertextual com o Salmo 23 da Bíblia Cristã (). No entanto, o autor opera uma subversão desse sentido original ao substituir a divindade pela figura de Pote Cru. Esse personagem não conduz o eu lírico a pastos verdejantes ou à salvação espiritual, mas sim a um cenário de restos, detritos e seres marginalizados (trapos, vísceras de piranhas, baratas albinas). A identificação do eu lírico com Pote Cru ocorre por meio da valorização do que é considerado inútil ou abjeto pela sociedade produtiva, o que constitui a essência da poética de Manoel de Barros: a celebração da insignificância e a transformação do em .
- Incorreta. O aluno extrapola uma característica individual para uma categoria universal. Operação: . Por exemplo: o aluno toma a 'voz de oratórios perdidos' como uma exigência para qualquer poeta, transformando uma descrição subjetiva em uma regra estética obrigatória.
- Incorreta. O aluno realiza uma leitura literal da intertextualidade bíblica, ignorando o conteúdo profano. Operação: . Por exemplo: o aluno identifica as palavras-chave do salmo e as transpõe diretamente para o poema, ignorando que Pote Cru é 'encontrado em osso' e vive entre 'vísceras de piranhas', o que anula a ideia de salvação espiritual clássica.
- Incorreta. O aluno confunde os elementos do cenário com a intenção do eu lírico. Operação: . Por exemplo: o aluno soma as referências espaciais e deduz um desejo de preservação histórica, quando, na verdade, esses locais são citados apenas como o habitat do abandono e da insignificância.
- Incorreta. O aluno seleciona apenas parte do inventário para definir a temática. Operação: . Por exemplo: o aluno contabiliza apenas os animais citados e ignora os artefatos humanos descartados, como 'linguetas de sapatos' e 'panos de regra', o que levaria à conclusão errada de que o guia serve para o estudo biológico.
- Correta. O poema exalta o descarte e o que não tem utilidade prática. Ao seguir um pastor que 'deambula entre trapos e vísceras', o eu lírico assume a postura estética de valorizar o insignificante, integrando-se ao mundo das 'coisas' em oposição aos grandes valores tradicionais.