Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis…
Gabarito: C
O fragmento apresentado pertence ao Sermão Décimo Quarto, de Padre Antônio Vieira, proferido em um engenho na Bahia por volta de 1633. O autor utiliza a estética barroca para estabelecer uma analogia entre o sofrimento físico e a degradação humana vivida pelos escravizados nos engenhos de açúcar e a Paixão de Cristo. Vieira descreve elementos específicos do cotidiano da escravidão, como o trabalho incessante (dia e noite), a falta de vestimentas e alimentação, e, principalmente, a violência física representada pelos ferros e açoites. O objetivo pedagógico e religioso do sermão era oferecer um sentido transcendental a esse sofrimento, incentivando a paciência para que a dor terrena se transformasse em mérito espiritual (martírio).
Enunciado
Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio. VIEIRA, A. Sermões. Tomo XI. Porto: Lello & Irmão, 1951 (adaptado). O trecho do sermão do Padre Antônio Vieira estabelece uma relação entre a Paixão de Cristo e
Alternativas
- A)
a atividade dos comerciantes de açúcar nos portos brasileiros.
- B)
a função dos mestres de açúcar durante a safra de cana.
- C)
o sofrimento dos jesuítas na conversão dos ameríndios.
Resposta correta - D)
o papel dos senhores na administração dos engenhos.
- E)
o trabalho dos escravos na produção de açúcar.
Resolução comentada
O fragmento apresentado pertence ao Sermão Décimo Quarto, de Padre Antônio Vieira, proferido em um engenho na Bahia por volta de 1633. O autor utiliza a estética barroca para estabelecer uma analogia entre o sofrimento físico e a degradação humana vivida pelos escravizados nos engenhos de açúcar e a Paixão de Cristo. Vieira descreve elementos específicos do cotidiano da escravidão, como o trabalho incessante (dia e noite), a falta de vestimentas e alimentação, e, principalmente, a violência física representada pelos ferros e açoites. O objetivo pedagógico e religioso do sermão era oferecer um sentido transcendental a esse sofrimento, incentivando a paciência para que a dor terrena se transformasse em mérito espiritual (martírio).
- Alternativa A: Incorreta. O aluno foca na dimensão econômica do açúcar mas desconsidera que o texto descreve o local de produção e castigo, não a zona de comércio. Operação de erro: o aluno identifica menção à economia e ignora descrições de castigo físico, resultando na escolha de uma atividade comercial indolor em vez da produção braçal punitiva.
- Alternativa B: Incorreta. O aluno confunde a elite técnica do engenho com a massa trabalhadora. Operação de erro: o aluno aplica o valor a um contexto que descreve explicitamente o status , obtendo uma categoria social que não sofria açoites.
- Alternativa C: Incorreta. O aluno identifica o autor (jesuíta) e assume que ele fala de si mesmo ou de seus pares. Operação de erro: o aluno realiza a soma ignorando o pronome e a referência direta às do processo industrial do açúcar.
- Alternativa D: Incorreta. O aluno reconhece o ambiente do engenho, mas inverte os polos da relação de poder. Operação de erro: o aluno atribui o sofrimento do martírio ao polo positivo em vez do polo negativo , ignorando que os senhores eram os aplicadores, e não os receptores, dos açoites mencionados.
- Alternativa E: Correta. O texto é uma evidência histórica das condições brutais do trabalho escravo no período colonial. A analogia com Cristo serve para legitimar a ordem social, ao mesmo tempo em que denuncia as privações () e as torturas () que compunham a realidade da produção açucareira.