Estrada Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,…
Gabarito: B
O poema de Manuel Bandeira exemplifica a poética modernista de transformar elementos banais do cotidiano em reflexões existenciais profundas. O eu lírico estabelece uma comparação entre o espaço urbano e o rural, valorizando este último pela sua capacidade de preservar a individualidade e permitir a contemplação. O passo a passo da análise inclui:
Enunciado
Estrada
Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho, Interessa mais que uma avenida urbana. Nas cidades todas as pessoas se parecem. Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a gente. Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma. Cada criatura é Única. Até os cães. Estes cães da roça parecem homens de negócios: Andam sempre preocupados. E quanta gente vem e vai! E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar: Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso. Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos, Que a vida passa! que a vida passa! E que a mocidade vai acabar.
BANDEIRA, M. O ritmo dissoluto. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.
A lírica de Manuel Bandeira é pautada na apreensão de significados profundos a partir de elementos do cotidiano. No poema Estrada, o lirismo presente no contraste entre campo e cidade aponta para
Alternativas
- A)
o desejo do eu lírico de resgatar a movimentação dos centros urbanos, o que revela sua nostalgia com relação à cidade.
- B)
a percepção do caráter efêmera da vida, possibilitada pela observação da aparente inércia da vida rural.
Resposta correta - C)
a opção do eu lírico pelo espaço bucólico como possibilidade de meditação sobre a sua juventude.
- D)
a visão negativa da passagem do tempo, visto que esta gera insegurança.
- E)
a profunda sensação de medo gerada pela reflexão acerca da morte.
Resolução comentada
O poema de Manuel Bandeira exemplifica a poética modernista de transformar elementos banais do cotidiano em reflexões existenciais profundas. O eu lírico estabelece uma comparação entre o espaço urbano e o rural, valorizando este último pela sua capacidade de preservar a individualidade e permitir a contemplação. O passo a passo da análise inclui:
- Identificação da crítica à cidade: No ambiente urbano, a impessoalidade impera, pois "todo mundo é toda a gente".
- Valorização do campo: No ambiente rural, observa-se a subjetividade ("cada um traz a sua alma") e os elementos cotidianos (o cão, a carrocinha, o bode).
- Conclusão filosófica: Através do "murmúrio da água", símbolo clássico do tempo que corre, o eu lírico conclui que a vida é passageira e a juventude é finita.
Dessa forma, a observação do ritmo mais lento e bucólico da estrada permite a percepção da efemeridade da existência.
Análise das alternativas:
- Incorreta. O aluno inverte a polaridade da preferência expressa no texto: interpreta como saudade da cidade. Por exemplo: o aluno lê "interessa mais que uma avenida" e erroneamente conclui que o interesse reside no resgate do urbano, obtendo uma interpretação de nostalgia que o texto nega explicitamente.
- Correta. A observação do cotidiano rural, com seu ritmo próprio, leva à meditação sobre a transitoriedade, simbolizada pela água e pela finitude da mocidade.
- Incorreta. O aluno realiza uma redução temática: foca apenas na menção à juventude no final do poema, ignorando a universalidade da vida que passa mencionada anteriormente. Por exemplo: o aluno considera apenas componente do encerramento em vez do conjunto , limitando a meditação a um recorte biográfico e não existencial amplo.
- Incorreta. O aluno confunde o sentimento de melancolia ou meditação com insegurança. Por exemplo: o aluno atribui um valor psicológico de (insegurança) à passagem do tempo, enquanto o texto apresenta uma postura de aceitação simbólica, resultando em uma leitura de tom emocional equivocada.
- Incorreta. O aluno comete um erro de hipérbole interpretativa: escala o tema do "enterro a pé" para uma sensação de medo paralisante. Por exemplo: o aluno soma a imagem do enterro ao fim da juventude e multiplica o peso emocional por um fator de gravidade desnecessário, resultando em "medo profundo" onde o poema propõe apenas meditação.