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Ele se aproximou e com a voz cantante de nordestino que a emocionou,…

Gabarito: D

O fragmento da obra A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, expõe o encontro entre duas personagens marginalizadas: Macabéa e Olímpico de Jesus. A narrativa destaca a fragilidade da identidade e a precariedade da comunicação entre eles. Macabéa, em sua ingenuidade e falta de repertório, sequer entende a origem de seu nome ou o mundo ao seu redor. Olímpico, por sua vez, tenta mascarar sua condição social através da mentira e da agressividade ("galinho de briga"). O ponto central do texto é a dificuldade de ambos em manejar a linguagem para expressar quem são ou o que sentem, o que reflete sua exclusão social e ontológica.

Enunciado

Ele se aproximou e com a voz cantante de nordestino que a emocionou, perguntou-lhe: — E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear? — Sim, respondeu atabalhoadamente com pressa, antes que ele mudasse de ideia. — E se me permite, qual é mesmo a sua graça? — Macabea. — Maca — o quê? — Bea, foi ela obrigada a completar. — Me desculpe mas até parece doença, doença de pele. — Eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu vingasse, até um ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem mas parece que deu certo — parou um instante retomando o fôlego perdido e acrescentou desanimada e com pudor — pois como o senhor vê eu vinguei... pois é... (…) Numa das vezes em que se encontraram ela afinal perguntou-lhe o nome. — Olímpico de Jesus Moreira Chaves — mentiu ele porque tinha como sobrenome apenas o de Jesus, sobrenome dos que não têm pai. (…) — Eu não entendo o seu nome — disse ela. — Olímpico? Macabea fingia enorme curiosidade escondendo dele que ela nunca entendia tudo muito bem e que isso era assim mesmo. Mas ele, galinho de briga que era, arrepiou-se todo com a pergunta tola e que ele não sabia responder. Disse aborrecido: — Eu sei mas não quero dizer! — Não faz mal, não faz mal, não faz mal... a gente não precisa entender o nome.

LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978 (fragmento).

Na passagem transcrita, a caracterização das personagens e o diálogo que elas estabelecem revelam alguns aspectos centrais da obra, entre os quais se destaca a

Alternativas

  • A)

    ênfase metalinguística nas falas dos personagens, conscientes de sua limitação linguística e discursiva.

  • B)

    relação afetiva dos personagens, por meio da qual tentam superar as dificuldades de comunicação.

  • C)

    expressividade poética dos personagens, que procuram compreender a origem de seus nomes.

  • D)

    privação da palavra, que denota um dos fatores da exclusão social vivida pelos personagens.

    Resposta correta
  • E)

    consciência dos personagens de que o fingimento é uma estratégia argumentativa de persuasão.

Resolução comentada

O fragmento da obra A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, expõe o encontro entre duas personagens marginalizadas: Macabéa e Olímpico de Jesus. A narrativa destaca a fragilidade da identidade e a precariedade da comunicação entre eles. Macabéa, em sua ingenuidade e falta de repertório, sequer entende a origem de seu nome ou o mundo ao seu redor. Olímpico, por sua vez, tenta mascarar sua condição social através da mentira e da agressividade ("galinho de briga"). O ponto central do texto é a dificuldade de ambos em manejar a linguagem para expressar quem são ou o que sentem, o que reflete sua exclusão social e ontológica.

  • Incorreta. O aluno aplica o conceito de função metalinguística de forma indiscriminada ao notar que as personagens discutem seus próprios nomes. Erro: atribui valor 11 (consciência metalinguística) para um diálogo que evidencia 00 de domínio sobre o código linguístico.
  • Incorreta. O aluno confunde a tentativa de aproximação física com a superação de barreiras internas. Erro: o aluno calcula 1 convite+1 conversa=conexa˜o afetiva1 \text{ convite} + 1 \text{ conversa} = \text{conexão afetiva}, ignorando o fator de isolamento 1-1 que se manifesta na frase "ela nunca entendia tudo muito bem".
  • Incorreta. O aluno interpreta a explicação supersticiosa de Macabéa sobre seu nome como uma busca estética. Erro: o aluno multiplica o nome "Macabéa" por um fator de poeticidade 1,51{,}5 em vez de um fator de precariedade religiosa/social, obtendo uma visão idealizada da personagem.
  • Correta. A dificuldade em compreender nomes, o uso de mentiras para esconder a falta de sobrenome (ausência de pai) e a admissão de que "nunca entendia tudo muito bem" configuram a privação da palavra. Essa indigência linguística é o espelho da indigência social das personagens, que não possuem os meios simbólicos para se inserir plenamente na sociedade.
  • Incorreta. O aluno superestima a capacidade estratégica de Macabéa. Erro: eleva a ação de "fingir curiosidade" (um mecanismo de defesa contra o constrangimento) ao quadrado x2x^2, transformando uma reação passiva em uma "estratégia argumentativa" deliberada de persuasão.

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