Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente…
Gabarito: C
O poema "Confidência do Itabirano", de Carlos Drummond de Andrade, pertence à sua fase de poesia social e existencial (frequentemente associada ao livro Sentimento do Mundo, de 1940). A obra explora a construção da identidade do eu lírico a partir de sua origem geográfica e histórica: Itabira. A cidade não é apenas um cenário, mas uma substância que compõe o indivíduo ("de ferro", "oitenta por cento de ferro nas almas"). A resposta correta destaca essa tensão entre a subjetividade do "eu" e o peso da história e da comunidade, manifestada através de imagens metálicas e minerais que simbolizam a dureza e a herança afetiva do poeta.
Enunciado
Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e [comunicação. A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e [sem horizontes. E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana. De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil, este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval; este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas; este orgulho, esta cabeça baixa... Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói! ANDRADE, C. D. Poesia completa . Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. Carlos Drummond de Andrade é um dos expoentes do movimento modernista brasileiro. Com seus poemas, penetrou fundo na alma do Brasil e trabalhou poeticamente as inquietudes e os dilemas humanos. Sua poesia é feita de uma relação tensa entre o universal e o particular, como se percebe claramente na construção do poema Confidência do Itabirano . Tendo em vista os procedimentos de construção do texto literário e as concepções artísticas modernistas, conclui-se que o poema acima
Alternativas
- A)
representa a fase heroica do modernismo, devido ao tom contestatório e à utilização de expressões e usos linguísticos típicos da oralidade.
- B)
apresenta uma característica importante do gênero lírico, que é a apresentação objetiva de fatos e dados históricos.
- C)
evidencia uma tensão histórica entre o “eu” e a sua comunidade, por intermédio de imagens que representam a forma como a sociedade e o mundo colaboram para a constituição do indivíduo.
Resposta correta - D)
critica, por meio de um discurso irônico, a posição de inutilidade do poeta e da poesia em comparação com as prendas resgatadas de Itabira.
- E)
apresenta influências românticas, uma vez que trata da individualidade, da saudade da infância e do amor pela terra natal, por meio de recursos retóricos pomposos.
Resolução comentada
O poema "Confidência do Itabirano", de Carlos Drummond de Andrade, pertence à sua fase de poesia social e existencial (frequentemente associada ao livro Sentimento do Mundo, de 1940). A obra explora a construção da identidade do eu lírico a partir de sua origem geográfica e histórica: Itabira. A cidade não é apenas um cenário, mas uma substância que compõe o indivíduo ("de ferro", "oitenta por cento de ferro nas almas"). A resposta correta destaca essa tensão entre a subjetividade do "eu" e o peso da história e da comunidade, manifestada através de imagens metálicas e minerais que simbolizam a dureza e a herança afetiva do poeta.
- Incorreta. O aluno identifica erroneamente a fase do autor. Drummond pertence à Segunda Geração Modernista (Geração de 30), focada na consolidação e reflexão existencial/social, e não à fase heroica (Primeira Geração, 1922-1930), marcada pela ruptura radical. O aluno substitui o valor histórico da fase de consolidação () pela fase de ruptura ().
- Incorreta. O aluno interpreta as metáforas quantitativas de forma literal. Ao ler e , ele converte a função poética (subjetiva) em uma função referencial (objetiva), tratando o poema como um relatório de mineração em vez de uma construção lírica.
- Correta. O poema constrói a identidade do sujeito como algo inseparável do meio: o ferro de Itabira molda a alma e o comportamento do eu lírico, evidenciando como a origem social e histórica constitui o indivíduo.
- Incorreta. O aluno confunde o tom confessional e melancólico com ironia satírica. Ele subtrai o sentimento de dor ("Mas como dói!") e o substitui por uma crítica à "inutilidade" da poesia, obtendo uma interpretação nula do sofrimento existencial que é o motor do texto.
- Incorreta. O aluno associa o tema da "saudade" e da "terra natal" automaticamente ao Romantismo, ignorando a estética modernista de Drummond. Ele ignora a secura da linguagem (estilo "de ferro") e atribui ao texto um valor de "pomposidade" () que não existe na dicção Drummondiana, que é contida e antissentimentalista ().